Positivismo como fundamento da Tecno-Utopia
Notas sobre a “Carta
de um Habitante de Genebra aos seus Contemporâneos” (1803)
Artur Alves (artur_alves(at)hotmail.com)
Introdução
Perceber os traços com que se desenha a nossa problemática actualidade é uma
tarefa arqueológica, antes de tudo o mais. Perceber os moldes do que
vivemos, já quebrados pela velocidade, risco e incerteza, é essencial
para pensar o real a partir de novas categorias, particularmente no que diz
respeito às relações que qualquer um de nós encontra
facilmente entre a evolução do conhecimento e a alteração
da vida quotidiana. Os protótipos dos processos de introdução
da inovação técnica e científica de que dispomos
hoje foram-nos legados pelo capitalismo industrial florescente do início
do século XIX. É nesse contexto que encontramos as propostas
de Saint-Simon, particularmente o texto seminal de que nos ocupamos aqui, que
surge profeticamente no ponto de viragem da economia política do Ocidente.
A sugestão de Saint-Simon é um contrato, como fica bem explícito
no texto. Um contrato que nos exorta a dar aos homens de génio todos
os meios de que necessitam para dedicar à Humanidade o melhor dos seus
esforços. Pretende pôr os cientistas mais destacados do seu tempo
ao serviço do bem comum, o que significa desviá-los das práticas
nefastas a que seriam necessariamente conduzidos pela ausência de meios
de subsistência. Esta ideia é de natureza prática, ou seja, é um
projecto ético cujo núcleo responde à questão da
Modernidade acerca da relação política entre a pesquisa
científica e o uso do conhecimento. Que a solução seja
a libertação dos cientistas da economia de mercado não é espantoso
para nós; todavia, é curioso que Saint-Simon o tenha percebido
tão bem.
Libertando as grandes mentes da ciência e da arte dos seus deveres materiais
para consigo próprios, criando as condições materiais
para o estudo independente da ciência através de uma subscrição
pública destinada a um prémio para as três maiores personalidades
da ciência. A determinação negativa desta proposta é impedir
esses génios de perturbar a paz, trabalhando em projectos nocivos para
o bem comum.
O projecto político-social como fundamento de progresso científico
Partindo do princípio que tal subscrição pública
fosse algum dia aceite, estas sumidades teriam a responsabilidade de dirigir
as artes e ciências para o bem comum, orientando os esforços da
comunidade de sábios para um trabalho de emancipação do
Homem. As questões que se levantam aqui são já bastante
graves: como orientar estes esforços sofisticados para vantagem
da maioria? E como abrir o caminho desta subscrição, evitando
os bloqueios provocados pela divisão da sociedade entre os grupos de
interesses dos agentes conscientes dos seus objectivos, por um lado, e o desinteresse
generalizado por parte dos que, até então, não teriam
visto senão o lado mais duro do desenvolvimento científico?
Saint-Simon sabia que o sucesso do projecto global depende da boa vontade dos
poderosos. Defendia, com esse fim em vista, um acordo claro entre os diversos
sectores da sociedade, em que as vantagens da cooperação ficassem
bem claras, sobretudo em relação às vantagens de longo
prazo. A questão mais sensível é contextual, mas pode
ser transposta em termos estruturais para a nossa época: o Poder não
tem razões para sacrificar o controlo do instrumento fundamental de
desenvolvimento dos dois séculos seguintes. Já nessa altura,
como bem viu Saint-Simon, a ciência e o poder se encontravam ligados,
numa classe burguesa ou aristocrática, que se encontrava na vanguarda
da pesquisa, sobretudo na Inglaterra. Por outro lado, como adversário
mais temível dos passos tímidos da emancipação
das massas, encontrava-se a aristocracia terratenente, ao tempo em luta pela
manutenção dos seus privilégios feudais e das velhas estruturas
sociais, contra as ondas de choque da Revolução Francesa.
A esta classe, então, a emancipação do seu sustentáculo
equivaleria à perda de controlo simbólico sobre a mesma. Com
o alastrar das ideias revolucionárias ou, muito simplesmente, com a
aquisição de novas capacidades e “conexões” (com
a “república das letras”), o povo libertar-se-ia da sua
dependência. Este tipo de situação é bem ilustrada
em O Castelo, de Franz Kafka, em que a personagem principal, o agrimensor
forasteiro, desestabiliza graças à sua instrução
e perseverança a bem oleada máquina burocrática e feudal
dos senhores do castelo. A busca de um lugar adequado sistematicamente negado
obriga o agrimensor a recorrer a todas as instâncias, fazendo-se valer
da sua situação de diferença e exterioridade para se afirmar
como indivíduo num sistema social estático e estanque.
A guerra perdida dos conservadores colocava-os numa encruzilhada dilemática:
ou instabilizavam o sistema com a repressão das novas ideias ou, aceitando-as,
teriam de alterar o sistema antes da revolução o destruir. É esta
incerteza que cria a inércia a que Saint-Simon se refere como o grande
obstáculo às suas ideias. Hoje em dia, esta divisão não
existe, mas a tecnociência está “concentrada”, em
centros de decisão política, financeira e económica longe
do controlo democrático. A relevância das suas decisões é tão
grande quanto o impacto destas a todos os níveis da sociedade – e
esta influência decisiva advém da produção e uso
de conhecimento. Este é um dos aspectos da centralidade do conhecimento
na sociedade, do seu carácter estratégico, que os poderes político-financeiros
conhecem e monopolizam.
O enquadramento histórico da carta não ofusca a sempre presente
luta por um destino livre (ou de uma garantia mínima do direito à vida
autónoma face à arbitrariedade e à autoridade). Saint-Simon
dispõe-se a aproveitar o momento de grande prestígio das ciências
e das artes para levar os cientistas a colocar-se ao dispor dos povos despertados
para o seu valor, ainda que isso levasse a um corte definitivo com a aristocracia
proprietária, tal como acontecera na França revolucionária.
Saint-Simon afirma que a Revolução não teria sido possível
sem cientistas e artistas. Se é indiscutível que a aristocracia
perdeu o seu papel histórico durante esse período, o autor esforça-se
sobretudo por opor retoricamente a esta o espírito do Iluminismo (as
classes ilustradas da sociedade), demonstrando a necessidade de uma aliança
entre todos para estabilizar de novo o corpo social. Aqui é o valor
da ordem e do «funcionamento regular da organização social» que
determina uma forma de aliança entre ciência e poder/propriedade,
inovadora para a época mas determinante na actualidade. Esta ideia viria
mais tarde a ganhar corpo na instituição de escolas politécnicas,
ou seja, na união entre ciência e prática, aplicação
tecnológica das novas sabedorias para a emancipação da
Humanidade.
A redução da conflitualidade social através de reformas é o
modo liberal de transição, ocorrendo quando o governo e as forças
de mudança encontram um ponto de equilíbrio nas ideias de preservação
da paz e de limitação das perdas. O fundamento maquiavélico
e estritamente anti-utópico da preservação da autoridade
evita os excessos revolucionários no plano político-social. Saint-Simon
esperava poder canalizar os esforços da aliança burguesa-aristocrática
em favor das massas, mantendo a legitimidade política sem derramamento
de sangue – uma alternativa reformista a uma sociedade sem classes.
O valor da estabilidade da sociedade é a chave para perceber como é possível
a convocação de todos para este projecto. A ideia da possibilidade
de um equilíbrio pacífico entre as velhas classes era e é muito
apelativa; uma vez criadas as condições mínimas, seria
possível iniciar a construção e desenvolvimento das instituições
que serviriam de suporte para estender os benefícios da ciência
a toda a sociedade, por igual. Note-se a ausência de referência à colectivização.
Idealmente, esse extremo seria desnecessário, porquanto Saint-Simon
apresenta uma visão moral, e não material, do problema da desigualdade
social.
O projecto científico como fundamento de progresso político-social
O objectivo de Saint-Simon é congregar vontades da liderança
para a elevação do estatuto das massas, ou seja, emancipar os
desfavorecidos, dando-lhes os instrumentos necessários para a emergência
de uma sociedade mais ilustrada e livre. Para isso, confiava nas forças
da ciência para criar um corpo social de sábios dedicado ao melhoramento
das condições de vida das classes até aí mais desfavorecidas.
A redução da conflitualidade social através de reformas
educativas e potencialmente universais. No seguimento de Kant, Saint-Simon
propõe a reforma total da Europa sob a liderança da nova ciência
e de um aprofundamento da moral cristã através da captura das
possibilidades da primeira. Assim, a ideia de uma subscrição
pública é a de atrair pelo prestígio os grandes cientistas
da época para o projecto social global.
A grande luta de Saint-Simon é contra o individualismo. O fundamento
de uma sociedade de homens livres seria a colaboração entre os
privilegiados intelectual e materialmente, para que o maior número possível
de pessoas pudesse aceder às suas inovações. Em contraste
com o projecto marxista, o socialismo de Saint-Simon parece bem mais realista,
não apelando a nivelamentos nominais, mas a uma contribuição
prática para o bem-estar da sociedade assente numa moralidade comunitária.
A definição desse “bem comum” – o aspecto mais
problemático da questão – viria da colaboração
entre o espírito prático da indústria e a reflexão
moral das ciências do espírito (literatura, filosofia, etc.).
Ou seja, a ciência seria complementada, no que à sua aplicação
diz respeito, pela reflexão social.
Não podemos esquecer-nos da importância da fé religiosa
neste programa. Aliás, toda a revolução científica
entre os séculos XVI e XIX assenta na ideia de um mandato de Deus para
conhecer, devassar e usar a Natureza para criar conhecimento, ou a simples
disponibilidade reticente da própria Natureza para se deixar conhecer.
Se o Homem deixou se ser o centro da Criação, não há dúvida
de que continuava a ser o centro do conhecimento, pronto para o usar em seu
próprio proveito. Sabemos hoje que este tipo de concepção
desemboca inevitavelmente no excesso. Por exemplo, no totalitarismo que, tecnologicamente
apoiado, exerce este poder arbitrariamente, não só sobre a Natureza,
mas também sobre o próprio ser humano. O problema está no
cruzamento de uma certa amoralidade científica com a ideia de criação
de novos valores com o poder que daí advém. A ideia inicial de “mandato
divino” não se conjuga mal com a de sede de poder sobre o resto
da Criação, tal como acontece com a ideia de uma ciência
neutral. O problema fundamental está em construir uma estrutura que
não permita a dissociação entre o elemento moral (bem
comum da Humanidade, assente nos direitos humanos) e a aplicação
social dos resultados do progresso científico.
Ainda assim, a administração desta sociedade parece ser entregue,
quase exclusivamente, a um corpo especializado da ciência e indústria,
constituído pelas classes dominantes do Antigo Regime. A introdução
do elemento meritocrático através do sistema de ensino politécnico
faria a diferença, permitindo mobilidade social onde antes não
existia. Muita da força desta ideia vem justamente do reconhecimento
da importância do progresso do conhecimento e da sua rápida implementação,
como catalisador do aumento do bem-estar e da felicidade. Propondo a subscrição,
Saint-Simon contrata o génio e integra-o no esforço. Em resultado,
o conhecimento tornar-se-ia o factor fundamental de desenvolvimento material,
espiritual e político das sociedades.
Um precursor para os novos utopistas
Penso não ser difícil nem injustificado encontrar
pontos de actualidade nesta carta de Saint-Simon. Na verdade, a sua proposta
de reforma da sociedade tem como ponto pivotal a ciência, algo que
começa a ser comum a partir do século XVIII. Num artigo de
1990 intitulado «Three Ways of Being-With Technology» ,
Carl Mitcham refere como características distintivas do optimismo
iluminista a relação entre moralidade, tecnologia e sociabilidade,
de que já falámos. O facto de tanta fé ser colocada
no progresso científico e no seu valor emancipatório é recorrente
na história daí em diante e ilustra o estado mais acabado de
uma concepção extremamente optimista dos resultados do conhecimento
aplicado na sociedade. Saint-Simon apelava às tecnologias emergentes
no seu tempo para solucionar as grandes clivagens sociais da época.
Por outro lado, percebeu também o potencial problemático ou
crítico da estrutura económico-social que emergiu da Revolução
Industrial e da Revolução Francesa e, temendo a instabilidade
múltipla daí derivada, dispôs-se a criar uma receita
que a permitisse reduzir.
Não nos deve espantar a sua proposta de uma continuidade legitimada.
Trata-se de abrir, logo de início, uma possibilidade de entendimento,
o que não é o mesmo que uma democracia. Uma estrutura de propriedade,
decisão e controlo científica, em conjunto com alguma mobilidade
meritocrática, não equivale a um governo democrático.
A centralização da decisão acerca da implementação
prática do conhecimento nas mãos de proprietários e técnicos
iluminados exclui a participação dos restantes, ainda que se
suponha existir confiança na capacidade dos primeiros para providenciar
bem-estar social. Este tipo de tecno-utopia não tem um horizonte democrático,
mas moral.
Hoje em dia, a primeira avaliação social de uma tecnologia é política;
a primeira questão é a do valor democrático da última
aplicação do saber científico. Ouvimos elogios ao valor
emancipatório de cada grande inovação, lemos acerca de
como novas formas de usar a tecnologia vão revolucionar as democracias.
Aconteceu com a rádio, a televisão, a Internet, mas também
com a industrialização, o Estado social, etc.. Foram simultaneamente
tecnologias e técnicas de promoção de progresso. O problema
está em que o utópico reside sempre no uso comunitário
e participativo de uma nova tecnologia no mundo da vida, e estes valores estão
em conflito com o individualismo democrático que sustenta e é permanentemente
convocado pela economia de consumo. Em resultado, as tecnologias são “capturadas” e
usadas como suporte da interacção económica entre produtores
e consumidores de produtos. O uso social é remetido para os campos alternativos,
onde se pode tornar um movimento universalizante (por exemplo, com o movimento
para o software livre) ou desaparecer nas franjas da contracultura (como as
rádios pirata do passado).
Assim, é necessário reconhecer o falhanço do pensamento
utópico, mesmo quando ele é convertido em letra de lei pelos
governos. A tecno-utopia tem de ser substituída por uma atitude ética
que remova a imagem da cornucópia democrática e retire ênfase
ao determinismo tecnológico. Isto é, a tecnologia não é um
caminho automático e seguro para a democratização e ilustração
da sociedade. Só uma atitude ético-moral de pendor social pode
equilibrar a natureza económica da tecnociência com o seu potencial
valor social. Ou seja, a partilha do conhecimento e a livre circulação
de informação são valores a defender a todo o custo, para
que a sociedade não se torne totalmente dependente da economia de mercado,
e para que os indivíduos dêem o seu contributo significativo para
a sua própria emancipação.